Evaldo Xavier é um mineiro de Belo Horizonte com raízes familiares fincadas em Ouro Preto. Terceiro de quatro filhos, descobriu a trilha religiosa cedo. Subia e descia as ladeiras da cidade histórica fascinado pelo movimento dos padres no exercício de sua liderança espiritual.

“A vocação veio desde pequeno. Eu via os padres andando de batina e gostava de ir atrás. Achava lindo. A vocação é um chamado, uma relação de amor. É como um matrimônio autêntico. Senti e sinto ainda hoje a vocação à minha ordem, àquilo que sou: frade de Nossa Senhora do Carmo”, disse o Frei, hoje com 52 anos, responsável pela Província Carmelitana de Santo Elias, a que a Escola Maria Montessori está vinculada.

Embora nunca tenha morado em Brasília, Frei Evaldo sempre acompanhou com interesse, curiosidade e uma indisfarçável dose de orgulho o crescimento da escola ao longo de boa parte desses 50 anos que a instituição completa em 2020. Uma trajetória que ele conecta à idealização da construção da capital federal e à própria história do pioneirismo dos Carmelitas na região.

“Os Carmelitas chegaram dois anos antes da inauguração formal da capital. Antes mesmo de ser criada a Arquidiocese de Brasília. A presença Carmelita aqui coincide com o nascimento da cidade, com as primeiras pedras. Um período em que as primeiras sementes estavam sendo lançadas na terra do Planalto Central”

Na opinião dele, a Escola Montessori se desenvolveu acompanhando conceitos inovadores e modernos que permeavam o país nos tempos da aventura da mudança da capital do litoral para o interior. “Sinto que Brasília é um ideal, mais do que algo que você vai e encontra pronto. Brasília é um ideal e fruto de um sonho que se tornou realidade. Fico impressionado toda vez que chego de avião e vejo o que se tornou. De como a vontade humana pôde ter criado uma cidade como essa. É um sonho vivido, concretizado, que ganha ruas, expressão no trânsito, no mercado, no tráfego, nas construções, na geografia, no mapa”.

Diante da demanda por educação naquela cidade incipiente, surgiu naturalmente a ideia de edificar um escola. “Existia na década de 1970 o modelo europeu de escolas paroquiais. Certamente Frei Lamberto (fundador) se inspirou nesse modelo. O projeto começou como escola paroquial, mas em seguida se deu um passo grande, ousado, de transformar aquela semente na Escola Montessori que existe hoje. Todo sonho começa como semente. E hoje você vê a semente pequena, lançada sobre a terra, que se transformou em árvore viçosa e que dá muitos frutos”, disse.

A escola, por sua vez, acompanhou a cidade nessa “metamorfose” da idealização para as concretizações.

“A cada vez que chegamos vemos novidades, construções, e tudo feito sem perder o charme. E o charme dessa escola, única no país, talvez um caso raríssimo em todo o continente americano, é que é uma escola que também é jardim zoológico, parque de diversões, casa. As crianças têm o jardim, o parque, os animais, aprendem a conviver com a natureza, a respeitá-la. É um ambiente único não só em Brasília, mas no país inteiro. É um lugar não pensado para obter recursos, mas para garantir vivências”

As vivências a que Frei Evaldo se refere devem muito à escolha do método adotado para fazer a conexão entre as crianças e o conhecimento. “Como existiam diversas escolas já nascendo em Brasília, Frei Lamberto quis algo diferente. Por coincidência, ele havia ido à Europa e, na Holanda, conheceu o Método Montessori. Maria Montessori trabalhou nos Países Baixos, na Holanda e na Bélgica. A decisão de buscar esse método, essa abordagem, foi um marco educacional e, para nós, um sinal de que a presença Carmelita em Brasília pode trazer benefícios não só de ordem espiritual, humana, religiosa, mas de ordem educacional e formativa”.

 

Rosto de Maria Montessori impresso na antiga nota de 1.000 liras italianas: reconhecimento histórico.

Coincidentemente, Frei Evaldo também teve um contato europeu, ainda que por vias tortas, com a dimensão de Maria Montessori no Velho Continente. “Há muitos e muitos anos, fui à Itália e peguei uma nota de mil liras, o papel moeda mais comum à época. E quem estava estampada? Maria Montessori. E aí pensei: ‘Nossa, essa mulher é importante, e me lembrei imediatamente da escola em Brasília. Na época eu tinha 19, 20 anos. A importância dela é reconhecida pelo governo italiano, pelo povo, pelo Estado”, contou o prior provincial da Província Carmelitana de Santo Elias no Brasil, responsável pelas regiões Sul e Sudeste.

Para Frei Evaldo, a digital mais perceptível do método se define na capacidade de fazer aflorar os dons. “Nós falamos muito hoje do resgate da pessoa humana, e a preocupação dela, Maria Montessori, no início do Século XX, já era no resgate, mas pela via dos dons das pessoas”, disse.

O método Montessori desperta dons. Muitos de nós corremos o risco de termos os dons ocultos por toda a vida. Há quem nasça cheio deles e morra sem saber que os têm. Esse método faz com que venha à tona o que temos de melhor. Os dons de cada criança que passa pela Escola Maria Montessori afloram, como a nata no leite que é fervido. A ‘nata’ de cada um de nós vem à tona por meio desse método”.

Centro de Formação

Um dos marcos do cinquentenário da Escola Maria Montessori é o desenvolvimento de um Centro de Capacitação no Método Montessori dentro da instituição, para qualificação de professores, pesquisadores e interessados em explorar as várias faces do método. Para Frei Evaldo, a semente que está sendo plantada agora é a de transformar a experiência bem-sucedida da escola em algo que possa ser partilhado, ampliado, aprimorado.

“Espero que esse Centro de Capacitação seja um marco não só nos 50 anos da Escola, mas em todo o Distrito Federal. E que se dissemine daqui para o Brasil. Espero que quem passe por aqui seja verdadeiramente capacitado. A religião cristã nos ensina que a mudança do ser humano não é externa. A verdadeira mudança tem essência, coração, alma. Espero que esse centro capacite a essência, a alma, os dons daqueles que por aqui passarem”

Para ele, o método merece ganhar ainda mais visibilidade, estudo e permeabilidade. “Eu acredito que é um método eficaz. E, mais do que eficaz, benéfico. Faz um grande bem. Não tem aluno que passe pela Escola Montessori e seja capaz de dizer que ‘não aprendeu’, que ‘não foi bom’. Todos têm uma grande saudade e uma grande gratidão”.