Baiano de Correntina, Belarmino Dias Magalhães é um profissional do tipo “raiz”. Do estilo que não teme ampliar o leque de habilidades para cumprir os desafios que surgem em sua trajetória. Funcionário da Escola Maria Montessori desde 14 janeiro de 1994, Seu Belo, como é mais conhecido, perde as contas das atividades que já desempenhou. Na chegada, viveu com a família por quase dez anos em instalações dentro do colégio, como zelador. Abria e fechava portões. Tratava a escola, que era bem menor, com cerca de 250 alunos do Ensino Infantil, como ‘seu quintal’.

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    Atuou também como segurança, cuidando de sete cachorros que o ajudavam na função. Semeou, adubou, regou e viu crescer boa parte das árvores pelas quais alunos, professores e funcionários passam despercebidos no cotidiano. Especializou-se, ainda, no controle da logística das quantidades e tipos de rações de cada animal que a escola acolhe, numa parceria com o Ibama.

    “Eu tenho amor por tudo, em especial por esses bichos de que cuido. É a experiência maior que tenho. Você aprende que, se você dá carinho, você recebe. Muitos gostam de mim, mas não são todos não”, disse Belarmino, hoje com 62 anos. Para cumprir a rotina diária de limpar viveiros, separar alimentos e cuidar de araras, papagaios, pavões, galinhas, perus, tartarugas, gansos, patos, peixes, tucano e vários outros pequenos pássaros, o despertador toca cedinho.

    “Hoje moro em Samambaia. Acordo às 4h30, tomo café da manhã e às 5h30 já estou na parada, para bater cartão às 7h e seguir até as 17h cuidando dos animais e dos jardins”, contou Seu Belo. Ele reforça que todo o trabalho com os bichinhos silvestres é feito de forma autorizada. “O Ibama monitora tudo. Faz visitas. Dá instruções para montarmos os recintos. E são eles que fornecem os animais”, explicou.

    Numa tentativa de não se apegar demais, ele prefere não dar nome aos ‘afilhados’, mas não nega que um em especial deixou saudades. “Ah, tinha um Sofreu, que aqui chamam de Corrupião. Era manso demais. Sentava na minha cabeça. Assobiava o Hino Nacional. Era um doce, uma gracinha. Coisa de se admirar. Não tem muito tempo que ele morreu”, emocionou-se, numa referência ao pássaro de pelagem alaranjada e preta, comum entre as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

    Organizado, ele tem uma área certinha para guardar e separar as refeições de todos os bichinhos. “Cada um tem a sua. Papagaio e arara é semente de girassol e manga. Os pavões é uma ração misturada de milho e semente de girassol. Os patos e o peru, a mesma coisa. O jabuti é mamão e um tipo de ração de cachorro. Para os peixes, temos ração própria, em sacos de 30 quilos. Rendem uns cinco meses. Temos mandis, carpas, piaus e tilápias”.

  • Escritório ao ar livre

    Com quatro filhos e três netos, Seu Belo não pestaneja em dizer que uma das riquezas de seu trabalho é estar num “escritório” frequentemente repleto de crianças.

    “A pureza delas é bonita. Eu me sinto feliz de uma criança me chamar de Seu Belo quando estou cuidando dos bichinhos. Paro um pouco. Dou atenção. Fico ‘emprazeirado’. É um amor sem malícia. Tem pessoas que estudaram aqui e voltaram casadas para falar comigo e mostrar para os filhos o ‘Seu Belo’”.

    Nos quase 25 anos na Maria Montessori, o jardineiro conviveu com vários dos responsáveis por comandar a instituição, como Frei Lamberto, Frei Domingos, Frei Alberto, Frei Geraldo, Frei Antônio, Frei Evaldo e Frei Eduardo. “Cada um teve sua contribuição nos avanços e melhorias. Penso que a escola construiu quase tudo o que pretendia, e que vai chegar muito bem a esses 50 anos”, opinou o jardineiro.

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  • Quando não está na função oficial, Seu Belo curte estar próximo da família. “Costumo ir a São Sebastião, onde tenho irmãos e irmã. Gosto de sair um pouco, conversar. Brincar na sinuca. Antes, jogava bola. Hoje, não aguento mais. Era lateral-direito e chutava com as duas pernas”, recorda o torcedor do São Paulo, embora tenha raízes baianas. “Foi coisa da cabeça, da intuição. Meus dois filhos são flamenguistas. Das duas filhas, uma é flamenguista e outra, vascaína. Cada um escolheu como quis”.

    Fã de churrasco, Seu Belo teve também um histórico como pescador, inclusive com direito a histórias difíceis de se confirmar. “Na Bahia peguei peixe demais. Dourado de dez quilos, surubim de 16 quilos. Era peixe assado, frito, cozido. Aqui, hoje, prefiro mesmo é cuidar dos peixinhos”, disse o baiano, que se define como um colega de trabalho fácil de lidar e que não pensa em aposentadoria.

    “Acho que me acostumei demais a isso tudo. Com os bichinhos, os colegas, as crianças. Eu me dou bem com todo mundo. Qualquer pessoa se dá comigo. Se depender de mim, não tem treta. Se acontecer de me aposentar, vou ter certamente grandes lembranças. Mas ainda dá para trabalhar uns bons anos. Estou bem. Vamos ver o amanhã”.

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