Tem aqueles que passam lá só para matar a curiosidade de ver como é uma sala diferente, com maca, gazes, algodões e balança. Tem quem simule uma dorzinha de cabeça só para sair um tiquinho do cotidiano escolar e ganhar um afago. Para esses, Maria do Socorro Brito Miranda mesclava atendimento com psicologia. Mas existem situações menos usuais, mas passíveis de ocorrer num ambiente de 1.655 alunos (além de dezenas de professores e servidores), que demandam as habilidades de uma técnica de enfermagem. De pequenos cortes a fraturas, da administração de antibióticos aos primeiros atendimentos em uma situação cardiorrespiratória.

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    Foi com essa perspectiva que a profissional que tem Socorro até no sobrenome ajudou a consolidar a área de enfermagem da Escola Maria Montessori entre 2001 e 2007. Pernambucana de Olinda, ela trouxe para o colégio uma longa bagagem que adquiriu ao longo de sua trajetória profissional na Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Uma caminhada com passagens pela Presidência da República, pelo Hospital Materno-Infantil do DF e pela gestão administrativa do Centro de Saúde Número 7, na Asa Sul.

    “Quando vim para cá eu já estava me aposentando da Secretária de Saúde. Fui convidada para ajudar a montar a sala de enfermagem. Pensar nos equipamentos e na estrutura para fazer os primeiros atendimentos às crianças e à comunidade escolar. Coisas simples e necessárias, como mesa de atendimento, soro, gaze, algodão, faixas, curativos”, recordou.

    A experiência de ter trabalhado em UTIs neonatais e na gestão hospitalar, segundo Socorro, foi muito útil para aprender no cotidiano a fazer uma triagem entre o que era curiosidade de meninos e meninas do que era, de fato, um caso médico.

    “A gente tem de ser um pouco enfermeira, um pouco psicóloga. A criança é muito verdadeira, mas em sua verdade às vezes cria situações para sair de sala, para dar uma passadinha na área médica. Muitas vezes uma boa conversa e um copo de água era o melhor remédio. A gente aprende a pesquisar direitinho e ver realmente de que se trata cada situação”

    A passagem pela enfermaria, para alguns, ganha tom extra de curiosidade porque o espaço é decorado com motivos infantis e coloridos, convidativos. “A gente sempre busca trazer uns painéis para a parede e os murais, para que o local não se pareça hostil, assustador, que não seja associado como um ‘lugar de tomar injeção’”, contou Socorro, numa entrevista no dia em que retornou à estrutura da Montessori e da enfermaria mais de dez anos após ter deixado a instituição para cuidar da saúde do pai.

     

     

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  • No dia a dia, a área de enfermaria dá um suporte aos pais. Com as devidas receitas médicas em mãos e autorização da família, a enfermeira administra remédios prescritos que a criança por ventura tenha de tomar no período que passa na escola. Presta também os primeiros-socorros em caso de acidentes e, quando há autorização, administra antitérmicos em situações de febre.

    “Houve uma vez que as crianças estavam na quadra de futebol e um coleguinha chutou sem querer a perninha do outro. Isso acabou gerando uma fratura. A gente faz uma primeira contenção com atadura, com todo o cuidado para manusear o mínimo possível, e liga para os pais”, relatou Socorro, que tem uma conexão com a capital federal desde os tempo em que as primeiras vigas foram assentadas.

    Nascida em 1951 e caçula de quatro irmãos, Socorro desembarcou na nova capital em 1960, quando o pai, que era comerciante, veio buscar oportunidades. Um tempo de muita terra e muita lama. De aposta no futuro. A família fincou raízes na Cidade Livre, que tempos depois seria rebatizada como Núcleo Bandeirante.

    “Era uma época difícil, de vida dura, poeira e lama. Mas todos conseguimos estudar e correr atrás. Eu me formei no que hoje é o Ensino Médio e fiz curso de auxiliar de enfermagem. Não fiz superior, para Enfermagem, porque só tinha em Goiânia”.

    Além da experiência na Presidência da República na reta final dos governos militares e da atuação em UTIs pediátricas no Hospital Materno Infantil, Socorro recorda bem dos desafios que teve como gestora à frente dos Centro de Saúde da 612 Sul.

    “Ali aprendi a ter paciência e tato para administrar com sabedoria e humanidade a falta de medicação e conflitos entre pacientes e funcionários. Houve várias vezes em que peguei meu carro para ir à Central de Medicamentos para garantir que não faltasse nada aos pacientes, para vencer a burocracia. Atendíamos diabéticos, hipertensos. Pessoas que não tinham dinheiro e não podiam esperar. Eu sempre fui muito preocupada com todos”.

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  • Preocupação e carinho que ela projetou, nos tempos de Montessori, na relação cotidiana com alunos, professores e com o método adotado pela instituição. “Quem estuda aqui é preparado para a vida. Aprende tudo o que há de mais bonito. Eu me lembro muito das atividades de vida prática, de pintura, de caixinhas em que os meninos pregavam botões, da cozinha experimental, do trenzinho”, listou.

    “Isso fora essa face da relação com a natureza. Patos, pavões, tartarugas. Sempre teve isso e me chamava a atenção. Essa junção de criança e natureza é uma das receitas para uma vida saudável. Levei daqui um vínculo especial, contatos de amizade, de respeito, de convivência, de interação”.

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