Quantos degraus cabem numa escalada profissional? Existe pé correto ou idade apropriada para iniciar essa subida? O ponto de chegada precisa existir ou a caminhada tem o dom de fazer do destino algo mais fluido? A trajetória de Nalciana de Jesus Gervásio de Menezes na Escola Maria Montessori não se pauta exatamente por responder a essas questões, mas por transformar a dúvida em parceira, em motor de uma inquietação.

Nalci, como é mais conhecida por colegas e amigos, chegou perto dos 30 anos sendo para si mesma uma grande interrogação. Tinha feito o Ensino Fundamental. Havia cumprido o Ensino Médio. Mas não tinha no horizonte um caminho definido.

“Eu estava passando por aquela fase que muitos seres humanos atravessam, de tentar se responder: ‘Para que nasci profissionalmente?’. Eu já tinha 26 anos. Não tinha curso algum. Nunca tinha despertado para nada”, recorda a brasiliense de 42 anos, caçula de três filhos.

O “para nada” só não era tão preciso porque havia uma pista. Ela sabia que adorava crianças. Tanto que optou por trabalhar como babá para garantir o sustento. Uma opção que, com o tempo, virou oportunidade. A dona da casa em que ela trabalhava um dia chegou e perguntou: “Você tem vontade de trabalhar numa escola?”. A resposta foi sincera: “Vontade tenho, mas não tenho experiência nem faculdade”. A insistência veio de pronto: “Mas quero saber se você tem mesmo vontade”. E Nalci enfatizou: “Tenho”.

A ousadia desse primeiro sim se tornou, nos últimos 15 anos, a “argamassa” para a construção de uma casinha bem cimentada no mundo da pedagogia e do universo montessoriano. A chegada à escola ativou uma espécie de disjuntor que a educadora não sabia que carregava. “O primeiro momento na escola, quando entrei de fato aqui e vi o espaço, as crianças, as professoras, já despertou um grande amor”.

Um amor que se traduziu em capacidade de dizer “sim” várias outras vezes. Nalciana foi estagiária voluntária por 30 dias. Abraçou uma oportunidade como auxiliar que surgiu na sequência. Migrou para uma função de contadora de histórias na sala de leitura. Agarrou a chance de uma faculdade com bolsa oferecida pela escola. Encantou-se pelo método. Qualificou-se. Fez pós-graduação. Cursos complementares. E, há quase cinco anos, tornou-se professora efetiva.

“No início, no meu segundo ano aqui, houve uma reunião que para mim foi decisiva. A Márcia Faturetto (diretora) reuniu as auxiliares e disse algo assim: ‘Olha, eu quero que vocês estudem, porque futuras professoras da escola vão sair desta sala. A escola vai abrir um concurso de bolsas. Vai ajudar a custear a faculdade de vocês, mas vocês terão que passar por uma seleção’”, relata. “Eram várias auxiliares. E só pensei: ‘É isso o que quero’. Eram três bolsas e fui uma das contempladas. Iniciei a faculdade, fiz a graduação e, no ano em que terminei, ganhei a primeira sala de aula. Fui promovida”, recorda Nalci.

Do olhar ao pandeiro

Os alicerces desse trabalho como educadora Nalci sustenta com cada uma das atividades que desempenhou. “Como auxiliar, eu estava sempre atenta quando as crianças precisavam de ajuda no lanche, no trabalho pessoal, na rotina montessoriana. Explicava como funcionavam os materiais, motivava. Tentava ser o braço direito da professora. Cuidava da organização de tudo, sempre contando com a ajuda das crianças, porque o método é bem isso, é trabalhar com a autonomia”, destaca. “A relação entre auxiliar e professora é um casamento que precisa ter paz para fluir. Uma parceria que se resolve pelo olhar, pelo entendimento imediato”, diz.

Das salas de leitura, vieram a aposta na criatividade e a exploração constante de novas narrativas para encantar meninos e meninas no processo de aprendizagem.

“Eu não tinha formação como contadora de histórias, mas entendi rapidamente que precisava entrar no universo infantil. A cada história eu me fantasiava, me caracterizava. Para trabalhar com o Maternal 1, criei uma forma diferente, porque não dá para exigir que eles fiquem sentadinhos. Aprendi a tocar pandeiro. Contava dez minutinhos de história e saía com eles pela escola e tocando pandeiro. As pessoas me viam e diziam: ‘Lá vem a Nalciana com o pandeiro dela!’”.

Ao pandeiro se somaram cursos, rodas de conversa com escritores, aprendizados e, principalmente, oportunidades de transcender as funções usuais. “Na sala de leitura pude aprender mais sobre a escola e suas características, porque não ficava só lá. Vez por outra eu substituía uma professora quando necessário. Assim, entendi especificidades do Maternal, do Jardim, do Primeiro Ano”.

Um método para a vida

Mais do que uma fórmula para ensinar os alunos a aprender, o método Montessori tornou-se uma parceria indissociável do cotidiano da profissional. “O método fez toda a diferença na minha vida. Eu era extremamente estabanada. Sou uma pessoa grande. Meus movimentos eram amplos. E ainda tinha a questão da obesidade. Tive que me refinar até na caligrafia. Eu escrevia com caixa alta, letra de forma. Tive que aprender a escrever a letra cursiva para ensinar as crianças. Aprendi a ensinar aqui, nasci na minha área profissional aqui na escola, com o método”, avalia a professora, que fez cirurgia de redução do estômago.

Inquieta por questões que têm conexão com o método, Nalciana procurou agregar ao repertório traços que se traduzem em habilidades complementares. Buscou pós-graduações em Educação Inclusiva e em Orientação Educacional e investiu numa nova especialização montessoriana.

“Acho que hoje sou retrato de tudo isso. Até dos tempos de babá, em que a mãe deixava aquele serzinho na minha mão e eu tinha de cuidar com amor e carinho, como uma segunda mãe. Até isso eu trago, porque te ajuda a perceber quando uma criança está precisando de colo em sala, e não de pegar um material. É saber acolher e ir melhorando com o tempo. É cuidar de cada uma dentro da sua individualidade. É aplicar nisso tudo o que aprendi com as professoras que tive como ícones, e incluir um pouquinho de mim mesma”.

Movimentar é preciso

Nesse processo, um dos aprendizados recentes foi entender de forma mais clara que movimento e conversa não são sinônimos de bagunça e que silêncio não necessariamente implica controle. “Antigamente, eu achava que uma criança normalizada era uma criança que ficava em silêncio, tranquila. Mas uma criança normalizada pode ser aquela criança que está em movimento, mas em um movimento normalizado”, explica.

“Ela pode sair de um lugar para o outro, conversar com um amigo, realizar a atividade dela, trabalhar com outra criança no tapete, mas sem fazer bagunça. Isso é normalização. Não é aquela criança que tem que ficar o tempo todo em silêncio, sem conversar durante uma atividade. Trocar experiências com o amigo é uma das chaves para o aprendizado”

Adicionalmente, ela passou a entender que a função primordial do professor em sala tem outras conotações. “Hoje entendo que o professor é um observador. Tenho que estar ali, preparar o ambiente, deixar tudo organizado para a chegada das crianças, para elas se desenvolverem. A minha função é observar e fazer interferências necessárias”, resume. “Mas uma classe montessoriana é aquela que funciona até sem o professor em sala”.

Com muitos, Nalciana é do tipo 24 horas por sete dias da semana. Vira e mexe se pega em casa pensando na escola. Conversando com o marido e falando dos alunos, dos projetos, das vivências. E, sempre que pode, com um caderno por perto, para não perder os contornos essenciais de um pensamento que surge fora da hora. “Quase todo professor tem um caderno à mão, porque às vezes a gente tem uma ideia e, se esquecer e não anotar, perde o foco. Estou sempre registrando”.

 

Origens bem sedimentadas

Fiel à relevância de cada degrau que percorreu, Nalciana se orgulha de enxergar uma conexão direta entre a sua trajetória e a da instituição. “Quando cheguei aqui, a escola tinha características de fazendinha. Ela avançou na questão mais tecnológica, a estrutura ficou maior, mas isso não interferiu na metodologia, na essência. A escola cresceu, mas não perdeu as origens. E acho que foi um pouco disso o que aconteceu comigo: cresci aqui, mas não perdi minhas origens. A minha conexão com Montessori continua a mesma. E é nesse caminho, nesse curso, nessa profissão que quero me aposentar”.

As origens se refletem também em nostalgia. Filha de um cozinheiro paraibano e de uma funcionária pública mineira já falecidos, Nalciana ouvia com frequência a mãe prever que a filha seria reconhecida como protagonista à frente de uma sala de aula do ensino infantil. “Ela sempre falava para mim: ‘Um dia ainda vou ver uma criança te chamando de professora. Ela não está mais aqui e não teve essa chance, porque faleceu seis meses antes de eu assumir uma turma pela primeira vez, mas sei que está no céu me vendo. Tenho certeza de que sabe que alcancei, que atingi esse objetivo, esse sonho que ela também ajudou a colocar dentro de mim”.