Sarah Régia Marques Barreiro registrou numa gavetinha especial da memória cheiros, luzes, sensações e vivências que teve entre 1988 e 1992. Foi esse o tempo em que foi aluna da então Escola Moderna Maria Montessori. Entrou com um ano e oito meses. Ficou até o fim do Jardim 3.

Hoje, aos 33 anos, lembra-se com nitidez de sua primeira professora, a “Branca de Neve titular” Solange Cerqueira. Recorda-se do ambiente limpo das salas e das aulas de vida prática em prédios baixos e modestos. O olfato vira e mexe remete às festas juninas. Registrou na retina a coroação de Nossa Senhora. Fixou na mente a piscina na frente do castelinho que até peixinhos teve durante um período. Não esquece os churrascos e jantares dançantes organizados para ajudar a construir a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

“Essas lembranças todas me marcaram muito. Tenho detalhes nítidos do trabalho pessoal com a torre rosa, os cilindros coloridos, as aulas de vida prática. A gente ralava cenoura, fazia suco de laranja, lavava os copos. O tapetinho era o mesmo de hoje. O chão era madeira, de compensado”, afirmou Sarah, sem perder o fio da meada.

“Naquela perspectiva de criança, o carrossel parecia que girava muito mais rápido. A área do parque era dividida por um muro e o trenzinho passava numa parte diferente. Eu me lembro direitinho também de correr pela escola toda para pegar papel e jogar na lixeira que agradecia quando a gente jogava o lixo nela”, completou. No mesmo fôlego, listou pavões, araras, tartarugas e peixinhos que já moldavam o horizonte e do famoso Tio Zé, maquinista do trenzinho por anos a fio.

Foi com esse conjunto quase fotográfico de registros que ela carregou ao longo da vida estudantil a ideia de um dia retornar à instituição. De trabalhar ali. De ser professora. E assim trilhou o caminho. Formou-se no Ensino Médio e correu para um curso de pedagogia. Formou-se, ganhou ganhou experiência atuando por sete anos numa escola bilíngue. Sempre sondando a Montessori por uma vaga, uma chance. Até que chegou a oportunidade, há três anos.

 “Acho que posso dizer que a minha história com a escola vem desde que nasci. Frei Lamberto (um dos fundadores) foi meu padrinho. Venho de uma família católica que convive na comunidade do Carmo, onde fui batizada e fiz a eucaristia. Sou a do meio de três filhas. Todas estudamos na escola. Meu sonho sempre foi trabalhar aqui, e muitas das minhas vivências hoje, em sala de aula, remetem ao que vivenciei quando criança”.

À intimidade com o ambiente montessoriano que desenvolveu na primeira infância, Sarah somou uma formação específica no método, com o estudo de manuais e um curso de pós-graduação entendeu a especificidade e o objetivo de cada um dos materiais que um dia manipulou. Aprendeu as melhores técnicas para apresentá-los. Vivenciou necessidade de respeitar os tempos de cada aluno e de ter uma perspectiva de acompanhamento individual. E já aplicou os conhecimentos em turmas do Maternal 1 e do Jardim 2.

“O maternal é aquele período sensorial, concreto, de adaptação, cuidado e acolhimento. O Jardim 2 já traz a questão da pré-alfabetização. Tudo feito numa sala bem preparada, que naturalmente convida a essa conquista. Quase 90% dos meninos e meninas saem lendo e escrevendo”, contou. Para ela, o método conspira para a independência e a autonomia das crianças.

“Quanto mais estudo, mais encantada fico. Não e fácil. Exige atenção constante, mas a ênfase em incentivar a criança a buscar o seu caminho, a escolha dos materiais para trabalhar e a busca de soluções ajuda a formar adultos bem resolvidos, preparados para enfrentar o mundo. São crianças livres, encaminhadas, bem resolvidas”.

No cotidiano, Sarah tem sempre o horizonte de trazer algo novo para as turmas em que atua. “Criança gosta de desafio, de novidade, de experiência, de investigar. Tento sempre trazer algo com esse tom. Quero sempre que eles saiam com aquele gostinho de quero mais”, brincou.

Nessa busca, a professora faz questão de reverenciar o legado de Maria Montessori. “Fico orgulhosa de ver o quanto ela foi inteligente e audaciosa em desenvolver esse método décadas atrás. Ele reuniu o que há de mais moderno na educação atual”, afirmou. “Foi a primeira mulher a querer fazer medicina. A sociedade se postou contra ela. Buscou especialização em psiquiatria. Nesse trabalho, criou o embrião do método, para ajudar no aprendizado das crianças que atendia. Ali, percebeu que, se as crianças com dificuldade já aprendiam, havia enorme potencial para as demais. Acertou muito”.

Vez por outra, Sarah compara a escola que conheceu na infância à que tem hoje como local de trabalho. Nessa pesagem, segundo ela, a balança pende para a afetividade.

“Houve mudanças físicas, mas sempre acompanhadas de capacitação e investimento nos profissionais. A escola não perdeu a essência do olhar individual, a capacidade de enxergar o aluno. Aqui, temos certeza de que não é uma matrícula, um número que está na nossa frente em sala de aula, mas um ser humano único. Apesar de a quantidade de alunos hoje ser muito maior, não se perdeu essa essência”.