Na cerimônia de apresentação da equipe da Montessori às famílias no início de cada ano letivo, em geral ela fica para o fim da lista. Não é à toa. O anúncio do apelido de Sueleda Célia Cardoso de Melo no microfone costuma vir acompanhado de uma efusiva salva de palmas. Há mais de 15 anos na instituição, Leda é uma das profissionais mais conhecidas da escola. Por atuar na secretaria, é muitas vezes a responsável pelo primeiro contato de alunos, pais e professores com a Montessori.

 

 

 

“A verdade é que tenho um pouco de vergonha quando sou aplaudida, mas é ótimo perceber isso como um reconhecimento”, resumiu. Potiguar da pequena Martins, município com ares serranos no interior do Rio Grande do Norte, Leda não é Leda se não tiver a maquiagem pronta para cada ocasião, um batom característico, em geral rosa, e unhas feitas.

Leda também não é Leda se não tiver um figurino marcante a cada festa junina, em geral expresso em vestidos coloridos e penteados especiais, tiaras das mais variadas estampas e cores para adornar seus longos cabelos loiros. Cabelos que vez por outra ganham tranças que rendem a ela a comparação com a princesa Elsa, de Frozen. Há inclusive um bonequinho da personagem em sua mesa de trabalho.

“Gosto desse cabelão. Dessa sensação de poder se produzir como princesa. Acho que já virei um personagem das nossas festas juninas. Adoro meus acessórios e presentes que recebo das mães, como laços, tiaras e bonequinhas. Gosto de farra. De fantasias. De dançar. Já pratiquei forró, dança do ventre e pole dance. Gosto mesmo. Acho que faço disso a menina que não tive. Brinco de Barbie comigo mesma”.

Elsa, Barbie ou bailarina, o mais importante é que Leda não é Leda, mesmo, de verdade, se não puder comandar com carinho, sorrisos e profissionalismo a função que exerce, grande parte do tempo, sentada sobre uma cadeira giratória do guichê de atendimento na secretaria da Escola Maria Montessori.

“Aqui atuamos em equipe. Abro a secretaria por volta das 7h20. Saio por volta das 17h30. Duas chegam mais cedo e outra fica até o fim do dia. Sou responsável pelo balcão, mas atendemos professores, cuidamos de documentação de alunos, de atas, dos diários. Fazemos atendimento ao público. Somos a primeira ponte para pais novos que chegam para conversar. Fazemos agendamentos de encontros deles com as coordenadoras. É uma rotina intensa”, listou Leda.

Ofício que ela não troca por nada. Por sua interação frequente e carinhosa com as crianças, foi sondada algumas vezes para fazer um curso de pedagogia e se tornar professora. Preferiu, contudo, investir na especialização para a função em que se considera mais talhada.

“Teve uma época em que até pensei ser professora, mas sinceramente não me vejo em outra área. Há até quem pense que é comodismo, mas gosto de verdade do que faço. Gosto de ajudar as pessoas e sempre procuro me reciclar. Agora mesmo estou fazendo uma especialização para gestão em atendimento. É importante porque tenho mesmo dificuldade de ser gestora”.

 
Leda em cinco cliques juninos: personagem obrigatório nas festas da escola. Fotos: Arquivo pessoal

 

 

Autonomia precoce

Filha de um mestre de obras e de uma diarista que também atuava como costureira, Leda mudou-se para Brasília cedinho, aos dois anos. Alternou a infância entre Sobradinho, onde a família se instalou, e o Gama, onde viveu boa parte da adolescência com a avó, cercada de primos e parentes. Aprendeu cedo a se virar. Numa família de 13 irmãos em que sete “vingaram” de fato, a autonomia sempre foi uma necessidade. Aos 21 anos, já estava casada e passou a viver em Ceilândia. Tem um filho já formado em Direito. “Se pudesse tinha tido uns 15. Adoro criança. Até cheguei a pensar em ter outro aos 40. Não era para ser. Brinco que tenho mais de 1.600 aqui na escola”.

A trajetória que levou Leda ao secretariado não surgiu de caso pensado. Na verdade, é resultado de uma soma de fatores que conspiraram para a função. A primeira oportunidade de emprego surgiu numa unidade da escola Pedacinho do Céu na Asa Norte. Uma de suas irmãs era casada com um funcionário de lá. Apareceu uma vaga na copa, numa função de servir lanches para os estudantes na cantina. Após quase um mês nessa área, a diretora da escola falou para ela de uma vaga na mecanografia. Como ela já tinha ensino médio concluído, se encaixava no perfil. Aventurou-se. Aprendeu. Comandou a reprografia. Entendeu melhor como funcionavam as demandas administrativas internas de uma escola.

Meses depois, surgiu uma vaga na secretaria. Naquele tempo, nos anos 1990, ainda não era essencial ter formação no setor, apenas uma autorização no MEC. Encarou e, sem perder tempo, buscou a especialização numa faculdade voltada para secretariado. Assim que se formou, em 2003, passou a buscar novos horizontes. Trabalhou no Núcleo Bandeirante. Lá, ficou sabendo de uma escola na Asa Sul que estava prestes a iniciar o desafio de abraçar o Ensino Fundamental. Precisava de uma secretária habilidade.

“Vim fazer essa entrevista na Maria Montessori no fim de 2003. Fui qualificada e fiquei encantada quando cheguei. Nunca tinha visto um ambiente como aquele. Era tipo uma fazendinha com parque. Lembro demais dos anõezinhos em cima do muro. Foi amor à primeira vista. Eles precisavam de alguém para começar de imediato. Eu avisei que queria muito a oportunidade, mas que não deixaria a outra escola antes de encerrar o ano. Acho que essa decisão pesou a meu favor. Vim em janeiro e fui contratada oficialmente em fevereiro”.

 
Detalhes do cantinho colorido de Leda na secretaria. Fotos: Letícia de Souza

 

 

De lá para cá, Leda sedimentou sua trajetória com um misto de acolhimento e qualificação. No início, atuava mais para o público interno da escola. Gradativamente, conquistou espaço para chegar ao público final da escola. “Eu entrei no lugar de uma moça que fazia a função há mais de oito anos. Havia um certo desafio de ser incluída ao grupo. Era uma escola pequena, mas tive de estudar bastante e me aprofundar nos processos. No início me senti um pouco perdida, até assustada. Mas tive muita ajuda”, recordou.

Mesmo nos momentos pessoais mais difíceis, como lidar com os cuidados da mãe que sofria com o Mal de Alzheimer e faleceu em 2019, Leda se apoiou em sua face profissional e no contato com o público externo para se fortalecer e seguir em frente. “Eu me encontrei no atendimento ao público e me identifiquei demais. Lidar com gente, conversar e estar próxima das crianças me motiva e me alimenta”, disse.

Essa proximidade é tanta que gera inclusive experiências transcendentes, puras. Há um tempo atrás, um aluno do Jardim II avisou para Leda que iria se casar com ela. E que ela iria à cerimônia vestida com tiara rosa e vestido de bailarina, de tule.

“Minha mãe costumava dizer que eu era a criança da família e que não podia faltar às festas para garantir a animação. Acho que consegui traduzir um pouco disso aqui”.