Esta é uma história pontilhada de inspiração, transpiração e resiliência. Mineiro de Bonfinópolis, Uelison de Oliveira dos Santos, de 36 anos, vivenciou uma trajetória difícil, mas recebeu de berço valores sólidos. Trouxe no DNA um espírito empreendedor nato e, principalmente, desenvolveu uma capacidade fora da curva de transformar oportunidades em alavancas para gerar seu crescimento profissional e levar bem-estar à sua família.


Uelison cresceu com a estrutura da Montessori: quando entrou, em 2005, ser professor era um sonho improvável. Fotos: Letícia de Souza

Aos cinco anos, Uelison teve um choque de realidade que provocou amadurecimento forçado e precoce num campo de futebol amador. Ali ele viu o pai, um pedreiro de origem que trabalhava em um açougue, morrer aos 33 anos, de insuficiência cardíaca, nos braços de um amigo da família. A mãe, que não teve oportunidades de estudar, ficou com os cinco filhos pequenos e uma ausência completa de recursos.

“Foi um período difícil. Moramos de favor em várias chácaras na região de Sobradinho. Em um barraco na Rota do Cavalo, a Terracap tirou a gente. Em outra chácara, o único lugar disponível era um galinheiro esvaziado. Era tão longe de escolas que não dava para ir. Minha mãe corria atrás de emprego e se tornou doméstica. Minha irmã deixou de morar com a gente para viver e trabalhar na casa de outras pessoas. Numa outra chácara, surgiu uma nova oportunidade. Não tinha água, gás ou luz, e a comida faltava de vez em quando, mas dava para estudar. Andávamos muito a pé no sol, mas íamos”.

O endereço mais definitivo da família surgiu em função de programas sociais de doação de lotes em um dos governos de Joaquim Roriz, na região de Sobradinho II. Em serralherias e madeireiras, conseguiram sobras de material para edificar um barraco muito simples. “Fizemos nós mesmos. Alguns diziam que iríamos virar bandidos, malas, traficantes”, recordou Uelison.

Não viraram. Se a mãe tinha poucas condições financeiras, trazia valores não negociáveis. Não queria ninguém no caminho errado. Marcava em cima, se preciso com cipó ou pedaço de mangueira nas pernas. “Não tinha ‘moda’ com a gente. Se ela nos via em má companhia, metia a mão. Tirava de perto. Dizia que só vai para o caminho errado quem tem cabeça fraca”, relatou. Assim, mesmo em condições precárias, as boas lembranças de Uelison são de partidas de futebol com bolas de meia e brincadeiras de pique-esconde durante a noite.


Por ter rodado por muitas das áreas da Montessori, Uelison se sente completamente à vontade na escola

Uma Montessori no caminho

As portas para a vida profissional se abriram pela informalidade. Para ajudar a garantir que não faltasse comida em casa, ele empacotava compras em mercado e vigiava carros nos turnos opostos aos das atividades escolares. Chegou a estudar à noite para ter os dias livres para complementar a renda familiar. “Nessa época já tinha água e luz em casa, mas sempre cortavam porque faltava dinheiro para pagar o boleto. Esses bicos ajudavam”.

Os caminhos de Uelison e da Escola Maria Montessori começaram a se cruzar por vias indiretas. A professora Marta Rocha tinha uma loja de festas em Sobradinho. Precisava de uma pessoa para o serviço pesado. Indicado pelo irmão, que já atuava como florista, Uelison chegou lá. “Ela imaginava que eu era um ‘homão’, mas apareceu lá um magrelo, pequeno, adolescente. Ainda assim ela meio que me adotou. Cobrava de mim os estudos. Como ela mexia com bufê, eu fazia compras e ajudava a limpar a loja”.

Alguns anos depois, já em meados de 2005, a loja fechou e a professora levou o breve currículo de Uelison para a Escola Maria Montessori. A primeira oportunidade que surgiu foi ao lado, na cantina. Em seguida, em 7 de abril de 2005, apareceu uma chance no serviço de limpeza. “Eu era molecão quando entrei, mas sempre com uma perspectiva de ser responsável, prestativo. Fazer o meu e ajudar os outros no que fosse necessário”.


Como maquinista do trenzinho, Uelison viveu o período de maior popularidade com a criançada

Nessa toada de ajudar, Uelison foi eleito destaque do setor no segundo mês de contrato e reparou que os eventos sociais da escola usavam decorações de balões que ele julgava ‘fraquinhas’ em relação ao que ele estava habituado a ver e fazer na loja de festas em que teve a chance de trabalhar.

“Quando disse para a coordenadora que eu dava conta de fazer num padrão mais bonito, ela primeiro duvidou, mas falou que me convocaria na oportunidade seguinte. E foi assim. Era uma Hora Cívica no coreto. Fiz um arco-íris de balão com flores ao fundo. Muito top mesmo. Fez sucesso. Queriam saber quem fez e depois diziam que eu estava no lugar errado”

Uelison passou a ser convocado com frequência para auxiliar nos eventos e abraçou uma vaga de auxiliar administrativo que surgiu em seguida. Atuou alguns anos no controle de entrada e saída de pais e familiares para buscar os estudantes na portaria. Conheceu os segredos da plastificação de materiais montessorianos. “Aprendi de tudo lá. A ponto de treinar depois as pessoas novas e virar meio que um comandante do setor. É ali que a gente prepara muitos dos materiais usados em sala. Tem um corte certo, uma forma correta de fazer as bordas. A separação de cores por significado”, detalhou.

De perfil eclético, tornou-se DJ informal dos eventos da escola. Com a aposentadoria de Seu José, titular do trenzinho, virou maquinista e operador do carrossel. “Foi uma época boa demais. As crianças me viam e ficavam doidas. Eu passava na sala e elas vinham me abraçar. As professoras até brincavam que tinham de me tirar da frente da sala para conseguirem dar aulas. Isso me marcou muito. Criança gosta de quem bate na mão, conversa de videogame, dá atenção. Eu curti demais”, contou.



Um anjo na inscrição

Foi nesse período que começaram as primeiras conversas sobre um passo mais ousado. Depois de terminar o Ensino Médio paralelamente às atividades na escola, Uelison começou a ser incentivado a buscar a qualificação de professor. O caminho para vestir o uniforme que desde sempre tinha caráter de objeto de desejo para Uelison passava por um curso superior.

“Professores e colegas incentivavam. Diziam que eu precisava estudar mais para crescer, mas não era fácil. Eu não tinha condições de pagar faculdade”. Numa espécie de conspiração cósmica, foi nesse período que surgiu na escola uma política de bolsas de estudo. Professores ganhavam 50% e auxiliares administrativos, 70%. “Eu queria fazer educação física, e imaginava que as bolsas seriam só para quem fizesse pedagogia. Cheguei a preencher uma inscrição, mas errei um nome no formulário e desisti. Joguei no lixo”.

O que Uelison não sabia é que uma amiga percebeu essa rateada e não titubeou: pegou a inscrição do amigo já assinada no lixo, ajustou o erro a mão e entregou. “Só no dia em que anunciariam o resultado ela me avisou o que tinha feito. Fomos lá e eu tinha conseguido a bolsa de 70%. Eu nem acreditava de tanta felicidade”.

Uelison cumpriu a faculdade na Unip e, mesmo com a bolsa, passou por momentos de tensão no processo. “Teve época em que a faculdade custava mais do que o salário inteiro que eu recebia. Desgramou tudo, pensei. Em condições normais, o acordo era eu pagar o boleto primeiro e depois pedir o reembolso da bolsa na escola. Como todos confiavam em mim, consegui que me dessem antecipado o valor do reembolso para pagar os boletos e terminar o curso”.

A formatura veio em 2011. Antes mesmo do diploma na mão, Uelison já fazia estágios ao lado do professor titular como recreador na piscina. Por meses, conjugou a função administrativa com a atuação como substituto eventual. Ganhou experiência. Confiança. Consistência. Até que chegou o dia em que a diretora Márcia Fatureto o chamou para uma conversa. Avisou ali que ele seria contratado como professor de educação física.

“Foi um momento forte, bonito. Eu me emocionei mesmo. Disse para ela que sempre almejei, desde o início, pegar aquela blusa de professor. Eu vim da limpeza. De uma origem muito humilde. Fui crescendo. Tive muitas oportunidades e agarrei todas”



“Sou o que sempre quis ser”

Hoje, Uelison dá aulas para o primeiro ano do Ensino Fundamental e é responsável pela educação aquática do Ensino Infantil. Isso sem falar das aulas de escolinha de futebol e dos compromissos com a turma do Integral. Passa o dia na escola. Formula aulas de basquete, trabalha circuitos e corridas com obstáculos e ensina futsal. “Mas vou ser sincero. O que eles gostam é de correr. Quando a aula é de recreação, pique-pega ou coisas do tipo, eles adoram”.

Com 14 anos na escola, Uelison acompanhou mudanças importantes na estrutura e se viu retratado nessas alterações. “Quando entrei não havia prédios de dois andares no Infantil. A portaria era diferente. O ginásio maior não existia. Gosto da sensação de que a escola cresceu comigo. Hoje sou mais maduro e mais feliz. Sou o que sempre quis ser”, definiu.

O crescimento de Uelison na escola foi acompanhado, passo a passo, de mudanças estruturais na casa da família dele. Aquele barraco insalubre do início do texto tornou-se uma casa de alvenaria de outro patamar.

“Hoje é tudo de alvenaria, rebocado, com cerâmica no chão e no quintal. Essa escola é tudo para mim. Cresci de verdade nesse lugar. Pretendo me aposentar aqui. Sofreria demais se um dia saísse. Amo o que faço. Amo trabalhar aqui. É uma escola que te abraça e dá oportunidades. Um lugar que recebe a todos com carinho”.